Por: BRUNO PONTES

A Dilma tem programa, que é o Programa Nacional de Direitos Humanos 3. Esse é o programa dela: marchando para o socialismo. Tirando as liberdades individuais; limitando a imprensa; limitando os proprietários; permitindo as invasões; permitindo o aborto, e assim vai.
A seguir, entrevista que fiz com o cientista político Pedro Henrique Chaves Antero, professor da Universidade de Fortaleza (Unifor). Foi publicada hoje (20), no jornal O Estado. É sempre um prazer ouvir quem realmente sabe o que está acontecendo. E por isso mesmo também é angustiante.
“Todos estão doutrinados pelas idéias da esquerda”
Em função do trabalho de “mudança de mentalidade” promovido pelas esquerdas, os brasileiros estão cegos para os atos do governo e para o rumo que eles apontam. É a opinião do cientista político Pedro Henrique Chaves Antero. Segundo ele, esse serviço foi efetuado por meio da imprensa, da universidade e da igreja. “Lamento que haja muitas pessoas de boa intenção sendo levadas a reboque dessa doutrinação”, diz Antero, que discorreu sobre política e eleições na seguinte entrevista ao jornal O Estado.

O Estado – Lula declarou que “é preciso extirpar o DEM da política brasileira”. Como o senhor avalia a postura do presidente?

Pedro Henrique Chaves Antero – A declaração de Lula coincide com tudo que os ditadores que já passaram pelo mundo disseram: eliminar o que for oposição e estabelecer o regime do partido único. E o PT gostaria de ser esse partido. Considero isso de muita gravidade. Em 64, as forças nacionais se rebelaram contra um regime que apregoava o comunismo. A primeira reação foi do povo. Houve passeatas enormes, em São Paulo e no Rio de Janeiro, solicitando a intervenção e a derrubada do governo [João Goulart] por conta do rumo para o qual estávamos caminhando. Hoje essa disposição de reação é muito menor. Em primeiro lugar, porque a experiência militar durante todo o período não foi tão boa. A reação militar se justificou plenamente na sua intervenção, mas não se justificou no seu prolongamento por tantos anos. Castelo Branco tinha toda razão de dizer que a intervenção militar deveria encerrar-se após seu mandato. Mas de qualquer maneira não temos hoje, nem da parte dos militares nem da parte do povo em geral, essa disposição de reagir contra uma coisa que vai marchando para um abismo, para uma situação difícil, que dificilmente poderá ter volta.

Como explica essa apatia da população?

Explico essa apatia como uma decorrência de um trabalho longo e profícuo das esquerdas no sentido de mudar a mentalidade das pessoas, através de canais subterrâneos na imprensa, na igreja, em algumas áreas militares e na população civil em geral. Nas universidades nem se fala. A universidade, desde aquela época, já era intoxicada pelas idéias de esquerda. Mas os outros segmentos da sociedade eram mais livres, mais independentes. Hoje, porém, todos estão doutrinados pela teoria do Antonio Gramsci, segundo a qual a tomada do poder pela esquerda para o estabelecimento da ditadura não é feita de modo violento, através de revolução, é feita através dos meios democráticos existentes. De quais meios nós dispomos aqui? De eleições livres, democráticas entre aspas. Mas, com maioria no Senado e na Câmara, eles poderão facilmente baixar todas as leis necessárias para se tornarem um governo ditatorial. Lamento que haja muitas pessoas de boa intenção, que realmente não gostariam de viver num regime de partido único, sendo levadas a reboque dessa doutrinação.

Por falar em governos militares, recentemente o Tribunal de Contas da União decidiu rever as indenizações pagas aos chamados perseguidos políticos pelo regime militar. O que pensa da Comissão de Anistia?

O que está sendo feito em termos de indenização aos ditos perseguidos políticos é uma aberração. Isso é uma negação da história, é uma injustiça que se pratica contra as pessoas que não são beneficiadas e que padeceram também em decorrência do conflito e, sobretudo, é um avançar nos nossos impostos, para satisfazer caprichos políticos de um pequeno grupo. E a sociedade não reage a uma coisa tão claramente absurda como essa, pois está anestesiada por uma cultura de que os militares fizeram tudo errado. Não digo que no tempo dos militares havia democracia plena. Digo apenas que a reação militar foi uma medida para evitar que esses mesmos que hoje estão no poder tivessem tomado o poder em 64. Os Dirceus da vida, as Dilmas da vida, e muitos outros políticos que estiveram no governo do Fernando Henrique Cardoso, estão no governo do Lula e estiveram no governo do Serra em São Paulo, tinham a intenção de tomar o poder violentamente para instalar um regime que não era democrático.

Essas indenizações são uma imoralidade. É uma falta de ética do atual governo e do governo passado [a Comissão de Anistia foi instalada em 2001, durante o segundo mandato de FHC]. Condeno inteiramente essa banda do PSDB que tem a mesma mentalidade, que se distingue do Lula e do PT apenas na sua maneira de ser e no interesse de estar ou não no poder. A mentalidade é a mesma, a origem é a mesma, e a vergonha que eles praticam contra a nação brasileira é a mesma.

Embora advogue e pratique a social-democracia, que é uma corrente da esquerda e assim é identificada em qualquer lugar do mundo, existe o mito de que o PSDB é um partido de direita. De que forma o senhor explica essa concepção?

O fato de o PSDB ser entendido como um partido de direita é decorrente desse trabalho político que o PT vem fazendo há anos para se tornar o único partido da República. Na medida em que o PT “empurrar” o PSDB para a direita, não há mais opositor para o PT dentro de sua área de trabalho, que é a esquerda. Nem Fernando Henrique Cardoso, nem Serra, nem Aloysio Nunes Ferreira, nem muitos outros que trabalharam com Fernando Henrique são de direita. Pelo contrário: são homens de esquerda. Obviamente reconheço que o Fernando Henrique Cardoso de hoje não é o mesmo daquele tempo. Ele cresceu, amadureceu e entendeu. Mas, embora tenha mudado, o Fernando Henrique não é um homem de direita. Tem sua formação inicial na esquerda. Com o Serra é a mesma coisa. Eu diria que hoje Serra e Fernando Henrique são pessoas de centro, mas com tendências para a esquerda, que é a origem deles.

O senhor fala em crescimento e amadurecimento. Vê alguma mudança na orientação ideológica de Dilma Rousseff?

A Dilma é plenamente de esquerda. Nunca amadureceu. Foi uma terrorista. Todos sabem disso, não estou falando nenhuma novidade. Nunca vi um reconhecimento de culpa, de erro, nem mesmo de estratégia dessas pessoas. Eles se consideram heróis que assim fizeram e que assim deveriam ter feito. Não reconhecem que foi um absurdo querer transformar o Brasil numa Cuba. Muitos desses que estão aí pregando o socialismo e defendendo o governo Dilma são aqueles que quiseram instalar aqui o regime cubano.

Carlos Lacerda gostava de dizer uma coisa muito certa: a pessoa que não é comunista na juventude é burra; se continuar a ser comunista depois dos 24 anos, é burra também. Esse fogo juvenil de mudar a sociedade é uma coisa natural. Como o marxismo era, naquele tempo, a opção política existente para se mudar a sociedade, todo jovem que se quisesse inteligente entraria para o movimento da esquerda. Mas hoje, depois de tanto fracasso da esquerda… Veja o que é Cuba. Desde 59 sob uma ditadura violenta, com um único presidente, sem liberdade, sem comida, sem saúde.

O senhor tem criticado o PSDB por fazer ao governo federal uma oposição, nas suas próprias palavras, “covarde e ambígua“. Como avalia a campanha presidencial de José Serra? 

A candidatura do Serra é fraca, inicialmente, pela divisão do PSDB. Essa divisão entre Serra e Aécio neves, PSDB paulista e PSDB mineiro, é o cerne do enfraquecimento do partido. O PSDB nunca foi um partido unido. Sempre tem aquelas pessoas que ficam insatisfeitas com as decisões dos tucanos paulistas e ficam trabalhando por trás e trabalhando contra o próprio partido. Isso é um erro obviamente do PSDB de São Paulo, que deveria ter aberto as portas do partido ao resto da nação.

Segundo ponto: os membros do PSDB são ambíguos, não têm posições políticas claras. São em parte democratas, liberais, em parte socialistas. Não defendem uma posição firme e definida. Não fazem um programa de governo assentado numa única doutrina, porque têm mil cabeças pensando de maneira diferente. Hoje, por exemplo, você não sabe realmente qual é o programa de governo do Serra. Ele fala em saúde, em educação, nos genéricos, nisso e naquilo, mas cadê, qual é o programa? Não existe. Já a Dilma tem programa, que é o Programa Nacional de Direitos Humanos 3. Esse é o programa dela: marchando para o socialismo. Tirando as liberdades individuais; limitando a imprensa; limitando os proprietários; permitindo as invasões; permitindo o aborto, e assim vai. A Dilma tem uma linha de trabalho. Do outro lado não existe nada.

Publicada no jornal O Estado.
Bruno Pontes é jornalista – http://brunopontes.blogspot.com