Marcel de Corte

Venho novamente falar da fascinação que o socialismo marxista exerce em alguns católicos, jovens e velhos, ingênuos ou maliciosos. À primeira vista, aqui reside um mistério. Vejo homens que se apresentam como adversários do marxismo, mas que conferem todavia à doutrina ou àqueles que a professam a posição privilegiada de ponto de referência. Nada escrevem, nada fazem, nada iniciam sem antes se perguntar em que posição se situa seus pensamentos e atos em relação ao socialismo e aos adeptos de sua ortodoxia. Parece que sua preocupação dominante é sublinhar as semelhanças (e por vezes as diferenças) de atitudes diante das questões sociais e políticas.

Seria vão dizer que isso é tática e manobra. Não se ocupa os postos elevados dum partido, contando somente com o apoio deste mesmo partido. Um partido só tem sentido em relação aos demais partidos. Para triunfar, o acordo tácito dos adversários é quase sempre necessário. A longa experiência dos governos de coalizão é prova inconteste disso. Alça-se num átimo um indivíduo obscuro aos primeiros postos, não por nele confiarem seus partidários, mas sob a pressão oblíqua dos opositores. Assim vê-se, na multidão que sitia a entrada do guichê, correntes adversas conduzirem rapidamente o hábil aproveitador em direção ao alvo. Os demais ficam de mãos abanando. Para ele, basta se esgueirar até o ponto de tangência dos movimentos contrários. É um método bem conhecido hoje em dia, com resultados comprovados. Uma pessoa tem em vista menos “os seus” que “os outros”. Eis o abc do que denominamos política.

No entanto, esta é uma explicação curta demais. Atualmente, o político há-de ter como bagagem um mínimo de “idéias” e de “filosofia”, umaweltanschauung, no dizer dos alemães, uma visão do mundo e da sociedade. É algo que pareceria ridículo a nossos ancestrais. Por exemplo, um Rechelieu ou um Henrique IV não possuíam nem sistema nem doutrina. Era-lhes suficiente o sólido bom senso, o sentido do concreto e dos fatos, o prazer em servir, a aptidão para o comando e a intuição do bem. Hoje não é mais assim. O político considera mais a opinião dos eleitores sobre os fatos que os fatos em si mesmos. Não procura saber se as opiniões são verdadeiras ou falsas, razoáveis ou loucas, justas ou injustas. Para ele, é obrigação inelutável curvar-se a isso, sob a pena de desaparecer do cenário político. Ora, a opinião é essencialmente cambiante, móvel, incerta. Ontem, quem era pela guerra, hoje é pela paz, ou vice-versa. Para trabalhar com segurança neste fluído complexo, é preciso solidificá-lo. Os sistemas e as modernas doutrinas políticas desempenham esse papel de rolo compressor. Cabe-lhes comunicar aos homens uma ortodoxia, um conjunto de idéias invariáveis, capazes de resistir aos desmentidos da experiência, na medida do possível. A posição do político encontra-se consolidada. Tem seus fiéis, sua “Igreja”, seu “credo”, seus “dogmas”. Em tal ambiente, a política tende a se tornar religião, sistema teológico da vida social e, em certos casos privilegiados, crença “mística” inabalável.

Neste plano, o cristão está definitivamente em desvantagem, frente aos concorrentes incrédulos. Antes de tudo, ele tem uma religião de caráter bem diverso, visto que é sobrenatural. Mais ainda, a despeito das inúmeras tentativas em contrário, em vão escrutará o Evangelho para descobrir aí uma doutrina social ou política. A Boa Nova transcende a tais preocupações. É testemunha disso o desprezo soberano do Cristo: “Daí a César o que é de César…”. Antes do mais, o cristianismo é pessoal, dirige-se à fina extremidade da alma. Ele só é social, só edifica a sociedade cristã à proporção que é pessoal, que impregna a alma, introduzindo nas relações do homem com o próximo o lubrificante da caridade. O Cristo não fora o “primeiro socialista” ou “o primeiro democrata”, como afirma a exegese arrevesada, mas simplesmente o primeiro cristão. Finalmente, enquanto terrestre, a Igreja possui uma doutrina social, inclusive um sentido político, que apregoa a fim de harmonizar a natureza decaída do homem com sua missão sobrenatural. Não é uma doutrina opinativa, mas uma sociologia baseada na experiência, na tradição, nas constantes da vida social e nas grandes e eternas colunas que mantêm o equilíbrio dos edifícios humanos. Como tal ensinamento atrairia as pessoas, se não é fundado na opinião? Neste domínio, ela é inerme. Conta-se desta feita nos dedos os políticos cristãos que prestaram atenção às Encíclicas e no Syllabus.

Nesta perspectiva, é quase inevitável que o político cristão, caso não tome cuidado, sofra a atração do sistema socialista. O marxismo é um sistema acomodado para solidificar a opinião instável. Ele não promete aos cidadãos isso ou aquilo, mas tudo, a felicidade total e definitiva. A opinião, imbuída de esperança, se estabiliza, assegurando ao mesmo tempo aos organizadores do engenhoso sistema um poder inamovível. Ora, este é o sonho de qualquer político: convivendo com a instabilidade de opinião, tem por fim único estabilizá-la, para assim estabilizar-se a si. Por isso, é importante para ele possuir uma Weltanschauung, uma visão total, a promessa duma filosofia do universo e da humanidade. O político cristão que adentra nesta engrenagem, logo vai se forjar uma visão do mundo, análoga à do marxismo, porque total. Na cabeça de muitos, é certo que este sistema é mais gelatinoso que sólido. Não se decide os destinos do mundo só com a cabeça sem correr o risco de vê-lo atolar-se na lama.

O segredo da conveniência entre o marxismo e um certo cristianismo é não haver segredo. A convergência é simplesmente o resultado duma política falseada desde o início.

Fonte: permanencia.org.br